Um grande amigo meu sempre me diz que preciso de uma religião e de um deus para me sentir bem comigo mesmo e com outras pessoas, sejam ele e ela quais forem. O problema é que eu, apesar de católico, não quero nem sigo a doutrina e nem acredito no deus mata-borrão, egoísta e que gosta de ser bajulado para garantir o funcionamento do universo.
Eu acredito apenas que há uma força maior que eu e que rege todas as lógicas possíveis do universo inteiro. O negócio é que meu amigo defende a crença num deus onisciente, onipotente e onipresente e esse meu deus é onipotente, onipresente, mas não onisciente – em vista que o universo tem uma lógica suprema (onipotente) (tanto é que se ele for “agredido”, volta-se contra os seres), está por toda parte (onipresente), mas não tem consciência de si mesmo. Pensando assim, não tenho nenhum deus a quem pedir ajuda, perdão ou bajular, restando-me apenas a crença no poder da humanidade em ajudar o próximo, viver em harmonia e o blablablá que todo mundo deveria fazer, mas quase ninguém faz. Meu amigo diz que é por pensar assim que estou mal sentimentalmente. Eu, infelizmente, tive que concordar.
Talvez se eu tivesse um deus que é umbigocêntrico, que gosta de puxa-sacos e a quem eu pudesse pedir ajuda, agradecer pelas alegrias e “culpar” por desafetos, eu fosse mais feliz. Alienado, mas feliz... Porque, deploravelmente, eu vivo em meio a muitos compatriotas e a uma humanidade que crê em deuses imaginários. Deploravelmente eu vivo em meio a pessoas que andam com cruzes nas mãos, pregando a paz e o amor e que, no instante seguinte, usam as mesmas cruzes para quebrar o crânio daquele que não adotou a paz e o amor ensinados. Eu vivo em meio à gente que prefere doar-se a deuses, em vez de fazer feliz o próximo, de cuidar da natureza para que ninguém sofra no futuro, de respeitar os outros em suas diferenças. Estou inerme a pessoas que creditam as próprias práticas a deuses e se “esquecem” que elas mesmas têm o poder da cura, da felicidade, do respeito, do amor e da paz.
Outro amigo (que é ateu) e eu sempre falamos sobre a existência de deus. Eu morro de rir: ele não entende quem acredita em deus e eu não entendo quem não acredita em qualquer deus... Eu não creio em outros deuses nem dou credibilidade a muitos, mas eu acho loucura não buscar um que seja, para que ele “dê” subsídios de sobrevivência harmoniosa... Os ateus dizem que não se pode provar que deus existe, mas o meu deus eu provo, pois ele está defronte de nossos olhos e tem soberania comprovada pela ciência. Até a hipótese do Big-Bang - que diz que o universo gerou-se e pôs-se em andamento após a explosão de uma pequenina esfera -, corrobora a favor da existência do deus que está e é tudo que há no cosmo...
(Agora querer saber de onde essa força surgiu é querer saber demais, não? O mistério que não se revela por epifanias ou pela pesquisa científica encanta mais do que a loucura em busca de um “pai” que tenha gerado deus e do “avô” de deus e por aí vai).
As pessoas, mesmo assim, podem me chamar de ateu, principalmente se souberem de minhas tristezas. Para muitos teístas, quem é triste demais não crê em deus, pois quem tem deus só vive feliz. Eu não preciso de um deus acalentador e de noções de alegria; o que eu preciso é de alguém que me entenda, que me ame, que fique comigo apesar de meus “defeitos” e “qualidades”, preciso de algo concreto, preciso de pessoas. Mas estas não estão interessadas nas outras. Elas estão ocupadas demais com seus santinhos, seus livros sagrados e com a defesa desmedida de ideologias... Não posso dizer que não faço isso, pois eu tenho minhas espécies de santos, livros sagrados (ou seja, pessoas que admiro e livros “normais”) e sou danado para defender, por vezes com ignorância, as minhas ideologias – quando alguém anteriormente as diminui a nada -, contudo, eu ao menos tento entender o próximo.
E eu entendo as pessoas que acreditam, por exemplo, no deus cristão. Elas de alguma maneira sabem que não é fácil acreditar na humanidade ou até mesmo nos próprios compatriotas, conseqüentemente se apegando a leis que “deus enviou aos homens”. Elas precisam de um ditador que não as deixe desistir da vida, já que confiar nos humanos é frustrante por tudo que aqui citei – inclusive, vale repetir, a mais valia de deuses em detrimento do “irmão” que está prestes jazer ao lado... Elas precisam de deuses a quem possam dirigir orações, pois é mais fácil esperar por milagres ao invés de agir.
*Extraído de anotações pessoais.